na sexta, fiz uma massa de
biscoitinhos de baunilha para levar na casa de uns amigos que haviam nos convidado para almoçar. na manhã confusa do sábado, lá ficaram esquecidos os tais biscoitinhos na geladeira. lembrei-me deles de tarde e, de noite, quando fui preparar alguma coisa para levar para o piquenique, assei rapidamente os biscoitinhos. mas eram doces. faltava alguma ideia salgada.
bem, os tomates eram muitos, estavam maduros e vermelhos. cortei-os ao meio, tirei as sementes, fiz uma piscina de azeite no fundo da assadeira, ajeitei ali as metades de tomates recheados com uma mistura de abobrinha crua ralada, arroz branco cozido, um pouco de molho de frango com sálvia, um ovo cru. poderia ter colocado farinha de rosca ou parmesão ralado por cima dos tomates recheados, mas não tinha. pus uma alcaparra em cada um, pra ficar bonitinho. e ficou. depois, coloquei-os no forno quente e ali ficaram uns quarenta minutos. o tomate adocicado, o azeite, o recheio úmido.
ficaram gostosos recheando os pãezinhos da neide.
o dia estava tão intenso e luminoso que tudo estava bom por princípio. até a chuva foi gostosa.
não gosto muito desta época do ano por conta do tal espírito natalino. fica tudo caótico, cínico, apressado. mas gosto muito da ideia do natal – de uma criança que nasce num estábulo e nos faz ver o mundo outra vez novo e desde o ponto de vista de quem nada tem. o piquenique tem um quê dessa ideia de natal pra mim: ali, de um encontro despretensioso de pessoas que moram perto e que de alguma maneira têm seus caminhos cruzados, vai se tecendo alguma coisa nova, amorosa. estar na praça, sujeito a nuvens e trovoadas, a céus azuis e sóis, aberto ao amigos e aos amigos dos amigos. o partilhar o que se tem e o que se é. descobrir e revolver a vida. há um delicioso desinteresse em tudo isso. não se vai a um piquenique para... vai-se ao piquenique. ponto.
para os piqueniques perto da nossa casa, o ano já terminou e, sem nos darmos conta, a cada mês forjamos pequenas festas de natal. que os novos ciclos sejam intensos em salgados amargos azedos e doces. aqui em casa, estamos prontos para os sabores do vento.